domingo, 8 de maio de 2016

Como selecionar música para ser ouvida sob efeito de LSD, por alguém cujo trabalho é esse (TRADUÇÃO LIVRE)

Escrito por Victoria Turk, publicado em Motherboard e traduzido por Sandro Rodrigues


Desde o apogeu da contracultura dos anos 1960, o LSD tem sido intimamente associado à música. Mas não são somente as tendências artísticas que os associam: pesquisadores descobriram que ouvir música pode de fato afetar a experiência com LSD em um nível neurológico – e eles possuem mapeamentos cerebrais para apoiar essa ideia.
Mendel Kaelen, que está realizando seu PhD em neurociências na Imperial College, conduziu diversos estudos que investigam a influência combinada de música e drogas psicodélicas em estudos com humanos. Um dos desafios? A escolha da música.
Em estudos recentes, tem sido responsabilidade de Kaelen (dentre outras coisas) conceber a lista de reprodução perfeita para uma viagem psicodélica cientificamente conduzida de acordo com rigorosos requisitos de pesquisa – uma tarefa que requer tanto uma sensibilidade criativa quanto um respeito pelo rigoroso quadro de procedimentos científicos.
Ele explicou que a necessidade de incluir música nesses estudos é confirmada diretamente pelo crescente interesse em estudar drogas psicodélicas e determinar como elas poderiam ser usadas em terapia: um dos principais objetivos da equipe do Imperial College com estas substâncias é explorar como elas poderiam ser utilizadas para ajudar a tratar transtornos mentais como a depressão.
Mendel Kaelen. Por Mendel Kaelen.

A ideia de incorporar música na terapia psicodélica não é nova; foi um ponto de grande interesse para musicoterapeutas na década de 1960. Mas Kaelen está tentando fundamentá-la numa estrutura científica sólida.
"Se você olhar para estes ensaios clínicos agora, todos eles, sem exceção, usam a música como parte do modelo de terapia", disse ele em uma entrevista por telefone. "Se a música desempenha um papel tão importante no método terapêutico, é preciso fazer muitas perguntas científicas importantes relacionadas a isso, a fim de realmente fazer avançar o campo - para assegurar de que realmente temos uma compreensão empírica do papel da música no trabalho terapêutico".
Falei com Kaelen sobre sua pesquisa acerca dos efeitos da música na experiência psicodélica (e vice-versa), sobre como isso poderia contribuir para o uso terapêutico dessas substâncias e, o mais importante, como ele seleciona músicas para tais situações incomuns.

*   *   *

Antes que possamos imaginar terapeutas dando LSD e um par de fones-de-ouvido para pacientes, é importante estabelecermos alguns fatos básicos sobre os efeitos combinados de música com psicodélicos. Em um estudo piloto, publicado ano passado na revista Psychopharmacology, Kaelen e seus colegas de pesquisa voltaram ao básico e testaram uma hipótese simples, inspirada na psicoterapia dos anos 1950 e 1960: o uso de psicodélicos intensifica a resposta emocional à música?
No estudo, dez voluntários ouviram cinco faixas instrumentais em duas ocasiões. Na primeira, eles receberam um placebo; na segunda, foi-lhes dado o LSD.
Mas qual música é apropriada para avaliar as respostas emocionais ao ácido? Os participantes ouviram duas listas de reprodução diferentes, cuja “potência emocional” foi equilibrada com base em avaliações anteriores de um grupo separado de pessoas. As faixas selecionadas estavam entre aquelas consideradas mais simpáticas e menos familiares – Kaelen explicou que a familiaridade de uma faixa poderia influenciar a resposta emocional das pessoas: “se a música for muito familiar, isso pode reduzir a possibilidade de se ter uma experiência nova, uma vez que você já teve experiência com essa canção antes em sua vida”.

Ambas as listas resultantes incluem faixas neo-clássicas e de ambient music, dos artistas Brian McBride, Ólafur Arnalds, Arve Henriksen e Greg Haines. Kaelen disse que Haines, um compositor britânico, foi uma escolha popular – ele tem utilizado suas faixas em vários estudos: “sua música simplesmente foi apontada por vezes e vezes como favorita”.
Os participantes do estudo em resposta emocional foram solicitados a classificar, em uma escala de 1 a 100, o quão emocionalmente afetados eles foram pelas músicas ouvidas, além de preencherem um questionário conhecido como GEMS-9, que os solicitava a dar uma nota para diferentes tipos de resposta emocional à música, tais como tranquilidade ou tensão. Os pesquisadores constataram que os participantes relatavam uma resposta emocional à música significativamente mais elevada quando eles ingeriam LSD e que as emoções relacionadas à “maravilha”, “transcendência”, “ternura” e “poder” foram particularmente aumentadas.




O gráfico mostra as classificações médias para diferentes emoções evocadas pela música quando sob efeito do placebo e do LSD. Eles marcaram cada emoção maior com o LSD. Imagem: M. Karlen et al, Psychopharmacology.

Eles concluem que sua descoberta "reforça a suposição de longa data de que a música assume uma qualidade e um significado intensificados sob a influência de drogas psicodélicas" e que isso poderia ser útil para aplicações terapêuticas. Eles acrescentam que, muitas vezes, os sentimentos de transcendência e maravilha são avaliados como favorecedores de experiências "espirituais" e que, portanto, a combinação de música com LSD pode provocar este tipo de viagem.

*   *   *

A experiência subjetiva dos participantes tem valor, mas Kaelen e seus colegas usaram também estudos de neuroimagem para explorar a relação entre música e LSD no cérebro.
Na sequência do estudo-piloto, Kaelen se envolveu com um estudo inovador que utilizou rastreamentos fMRI e MEG para mapear pela primeira vez o cérebro sob efeito de LSD. Vinte voluntários foram injetados com 75 microgramas de LSD (e, em outra ocasião, um placebo) e tiveram seus cérebros escaneados. A pesquisa favoreceu insights sobre alucinações visuais e mudanças na consciência associados com viagens psicodélicas.
Durante este mesmo estudo, os participantes passaram por períodos de silêncio e períodos de audição musical, enquanto estavam no scanner fMRI. Em seguida, respondiam a perguntas sobre seu humor e qualquer experiência visual que eles experimentassem (eles ficavam de olhos fechados). Os pesquisadores descobriram uma ligação entre a música e o tipo de visões das pessoas quando sob efeito de LSD.
O estudo, publicado no European Neuropsychopharmacology, descobriu que o fluxo de informação entre o córtex parahipocampal - que tem sido ligado à memória - e o córtex visual foi reduzido sob LSD. Mas, com a música, a comunicação entre essas duas áreas aumentou.
As  zonas em amarelo aumentaram a ligação com o parahipocampo. Atinge o máximo com LSD e música, em seguida LSD sem música e, por fim, placebo com música. Imagem: M. Kaelen et al, European Neuropsychopharmacology.

É importante indicar que a magnitude deste efeito está correlacionada com pessoas que relataram visões mais complexas, em particular, imagens autobiográficas por natureza.
“Muitas vezes, as pessoas tem vívidas imagens de olhos fechados onde estão interagindo – não é como se estivessem olhando para uma tela onde vissem imagens divertidas, mas há alguma interação pessoal com as imagens”, disse Kaelen.
A natureza pessoal da experiência psicodélica torna difícil escolher uma trilha sonora. "Isso foi, na verdade, uma coisa muito desafiadora, pois todos nós temos diferentes preferências musicais, é claro", disse Kaelen. Eles não podiam permitir que as pessoas trouxessem sua própria música, uma vez que eles precisavam de práticas padronizadas a fim de obter dados científicos limpos.
Kaelen iniciou selecionando uma lista de músicas que foi então colocada em um grupo separado para ter seu impacto emocional avaliado. "Inicialmente eu queria trabalhar com música neoclássica emocionalmente muito forte, mas considerando o ambiente desafiador onde as pessoas estão, dentro do scanner fMRI, eu realmente pensei que talvez não seria uma boa ideia expor as pessoas a um meio ambiente realmente intenso", explicou. "Eu acabei selecionando músicas que possuem uma atmosfera geral muito relaxante e positiva – principalmente música de um artista de ambient music chamado Robert Rich."

Kaelen acabou selecionando dois trechos de sete minutos, de músicas de Robert Rich e Lisa Moskow, de seu trabalho colaborativo de 1995, o álbum Yearning. Ele descreveu as faixas como calmantes com cordas melódicas (Moskow toca um sarod, instrumento indiano semelhante a um sitar). "Havia ali um monte de instrumentos bem típicos da ambient music – como um sintetizador, uma flauta – mas havia também um instrumento com uma linha melódica clara que as pessoas podem seguir", disse ele.
Kaelen disse que o trabalho de Rich foi realmente uma das razões pelas quais ele foi atraído para explorar os efeitos da música em sua pesquisa. "Robert Rich é incrível, porque ele realmente começou a fazer música com a ideia de que esta pode ser uma forma muito potente para induzir e também orientar os estados alterados", disse ele, referindo-se aos "sleep concerts” (concertos do sono), onde ele tocava para um público sonolento.
Reprodução de música em um scanner de ressonância magnética oferece seus próprios desafios, mesmo que os sujeitos não estejam sob efeito de LSD. Os pesquisadores usaram fones especiais (sem bobina magnética), compatíveis com o scanner de ressonância magnética, para tentar manter uma qualidade de som decente, em meio aos zumbidos da máquina. Enquanto algumas poucas pessoas não gostaram da música, Kaelen disse que a maioria as recebeu bem, como uma alternativa mais “calorosa” que o ruído do scanner.

*   *   *

Embora esses estudos tenham lançado luz sobre os efeitos da música e do LSD, quando experimentados em combinação, uma força motriz da pesquisa da equipe do Imperial College é explorar como os psicodélicos poderiam ser usados em um contexto terapêutico. A pesquisa mostrou que, utilizadas sob a orientação de um terapeuta, estas drogas poderiam ser úteis no tratamento de doenças tais como a depressão, a ansiedade e a dependência. Kaelen está interessado em como a música pode ajudar.
A ideia básica tem suas raízes na terapia psicodélica nos anos 60, antes que essas drogas tenham se tornado ilegais e, portanto, mais difíceis de trabalhar.
"As pessoas começaram a perceber que não é a droga em si que proporciona um efeito terapêutico; é a experiência que a droga é capaz de produzir em interação com o terapeuta, com o meio ambiente, que tem esse potencial", explicou Kaelen. "Indo além dessa concepção, as pessoas basicamente começaram a experimentar com diferentes formas de como projetar a experiência; como se certificar de que as pessoas têm uma experiência  realmente terapêutica".
A música foi logo reconhecida como um meio de ajudar a fornecer alguma estrutura para a experiência.
Recentemente, Kaelen estava envolvido em um ensaio clínico com administração de psilocibina – o composto psicodélico presente nos "cogumelos mágicos" – para pacientes com depressão resistente ao tratamento (os resultados ainda não foram publicados). O estudo ocorreu em um quarto de hospital decorado para parecer menos clínico e assustador – Kaelen observou que um quarto de hospital estéril era provavelmente "um dos piores lugares para se tomar uma droga psicodélica".
Quarto original / quarto adaptado. Imagem: Mendel Kaelen

Compilar uma lista de reprodução para este estudo foi muito mais desafiador, uma vez que era preciso obter uma trilha sonora para alimentar o ambiente terapêutico por cerca de seis horas, ao contrário dos poucos minutos no estudo de imagem do cérebro. Os sujeitos poderiam tanto ouvir através do sistema de som na sala ou através de fones de ouvido, mas a música ficava sempre ligada.

Kaelen disse que sua lista foi parcialmente inspirada pelo trabalho de pesquisadores anteriores, como a musicoterapeuta Helen Bonny, que desenvolveu, na década de 1960, um método chamado “Imaginação e Música Guiadas (GIM)”, para ajudar a explorar estados de consciência num contexto terapêutico.
Ele projetou sua lista de reprodução para refletir a mudança experimentada pelo uso da substância, desde o início dos efeitos da psilocibina até o pico da experiência e, em seguida, o retorno. "Para todas estas diferentes fases dentro da lista de reprodução, necessidades diferentes existem para serem cumpridas e a música pode ajudar com elas", disse Kaelen.
Por exemplo, muitas pessoas ficam naturalmente nervosas antes que a droga produza efeitos, então Kaelen selecionou músicas que pudessem ser calmantes e reconfortantes. Durante a chegada dos efeitos da substância, a música torna-se mais ritmada e, durante o pico do efeito da droga, que dura algumas horas, a música oscila entre diferentes intensidades emocionais, no que Kaelen chamado de efeito de pêndulo.
"Não seria bom para as pessoas serem constantemente expostas à música muito emocional; é preciso haver um momento em que o indivíduo é capaz também de refletir sobre a experiência", explicou.
Kaelen disse que levou meses para selecionar e misturar faixas para o ensaio, que ele tirou de sua própria biblioteca, bem como de recomendações presentes na obra de Bonny. Ele ficou longe das faixas mais clássicas ou cristãs, tal como ele disse ser importante que a música refletisse os momentos e não tivesse conotações de nenhuma religião específica. Kaelen compõe sua própria música eletrônica experimental, por isso foi capaz de misturar as faixas e adaptar a espacialização e o volume de acordo com a experiência que queria coreografar.
Ele não podia compartilhar toda sua lista de reprodução para o estudo, para que pudesse usá-la em outros estudos, sem arriscar que as pessoas se tornassem muito familiarizadas com uma música específica. No entanto, ele compartilhou algumas faixas: "Against the Sky", de Brian Eno e Harold Budd, caracterizando a fase de entrada como uma faixa calmante; "Sostenuto tranquillo ma cantabile", do músico erudito contemporâneo Henryk Górecki, é tocada na ascenção para o pico e é, de acordo com Kaelen, a primeira peça "emocionalmente evocativa"; e Greg Haines faz uma aparição com "183 Times" – música também utilizada no estudo piloto, para explorar o realce emocional durante a fase de pico.
Para demonstrar o efeito da música, Kaelen compartilhou comigo algumas experiências de pacientes. Em resposta a "183 Times," um paciente disse que era "O pico da experiência, a faixa que parecia resumir toda a experiência. Movendo-se para além das palavras, ela acompanhou a parte mais forte da viagem interior. Surpreendente!".

Outro compartilhou, "Essa música me fez chorar muito. Foi muito triste e bonito, chorar durante essa música sentida como uma liberação emocional, liberação de tristeza e maus sentimentos em relação a mim mesmo. Isso me fez pensar nas batalhas que tive que enfrentar na vida, sendo pressionado. No final desta canção me senti limpo e melhor e senti compaixão por mim mesmo".
Em última análise, Kaelen disse, algumas pessoas se ligaram muito bem com a música, e outros não.
"A seleção das músicas foi realmente muito difícil, porque a cada música considerada, fiz-me a pergunta: ‘Eu acho que essa música funciona para o paciente, porque funciona para mim, ou a canção funciona para o paciente porque traz consigo uma mensagem universal, que é intrínseca à própria música? '", Disse Kaelen.
Não há realmente uma ciência disso – pelo menos, não ainda.
"Para ser honesto contigo, quando comecei a fazer isso, também senti a enorme responsabilidade que a concepção de uma lista de reprodução de música como esta traz, porque as pessoas serão incrivelmente influenciadas por ela", admitiu.
Uma lição importante que Kaelen tirou do estudo é que, enquanto ele ainda acredita, por um lado, que há alguma universalidade na música, por outro, constata ser impossível fazer uma lista padronizada adequada para todos. Ele sugere que, no futuro, o terapeuta deva encontrar algum modo de adaptar a música para as necessidades singulares de seus pacientes. Seguindo adiante, isso é algo no qual ele vem trabalhando.
Ele enfatizou que o aspecto mais importante do uso terapêutico de psicodélicos reside em estabelecer um relacionamento forte entre paciente e terapeuta.
"A música, em essência, está lá sempre e somente a serviço do processo terapêutico central; que é apoiar a jornada de olhos fechados altamente pessoal que se desenrola ao longo das horas", disse ele.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Artigo científico apresenta o Primeiro Seminário sobre Psicodélicos do Rio de Janeiro

Em novembro de 2014, foi realizado no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ) o Primeiro Seminário sobre Psicodélicos do Rio de Janeiro, com a participação de pesquisadores, ativistas, estudantes e profissionais do campo das drogas tornadas ilícitas pelo proibicionismo. Organizado pelos psicólogos ativistas Fernando Beserra e Sandro Rodrigues, o evento foi motivado por notícias alarmantes na mídia e seus reflexos clínico-políticos na sociedade. 
A abertura do evento contou com a presença de professores do ISERJ, dentre os quais o próprio Fernando Beserra. A primeira mesa temática, Psicodélicos e Redução de Danos, teve a presença do músico e psicólogo Sandro Rodrigues, do cientista social e redutor de danos Tiago Coutinho e dos fotógrafos do site Mundo Cogumelo, Rafael Beraldo e Danyel Sylvestre, tendo sido mediada pelo cientista social e redutor de danos Dênis Petuco. Na mesa da tarde, Psicodélicos e políticas de drogas, estiveram presentes o psicólogo Fernando Beserra, o integrante da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos do Rio de Janeiro (FEDDH-RJ), Rodrigo Mattei, e o vereador Renato Cinco (PSOL-RJ), com mediação de uma organizadora da Ala Feminista da Marcha da Maconha do Rio de Janeiro, a historiadora Thamires Regina.
Tendo por objetivos a fixação de um documento histórico acerca do Seminário, pioneiro no Estado, assim como a elaboração de um material introdutório sobre a experiência humana com fármacos psicodélicos, os pesquisadores Sandro Rodrigues e Fernando Beserra elaboraram o artigo científico Drogas pesadas em Discussão no Primeiro Seminário sobre Psicodélicos do Rio de Janeiro, com base na organização e em debates levantados pelo Seminário. O artigo acaba de ser publicado numa edição sobre proibicionismo e antiproibicionismo da Revista Argumentum (UFES), que conta também com debates e artigos de companheiras e companheiros na luta antiproibicionista, como a Rita Cavalcanti, a Juliana Batistuta, o Francisco Inácio Bastos, a Isabela Bentes, a Luciana Boiteux, o Pablo Ornelas, etc.
É com uma enorme satisfação que disponibilizamos o artigo para ampla divulgação.

Espero que apreciem a leitura como uma boa viagem (nossas vitórias não serão por acidente)!

Ósculos e amplexos,
Sandro Rodrigues.

Baixe aqui o artigo.



domingo, 5 de abril de 2015

Sem retorno

Sem retorno. Dois acordes apenas pra chegar no refrão, a garganta seca parecendo soprar um tufão de areia fina por sobre a língua e um engasgo insinuante. Por meio segundo, o palato superior sedimenta, como houvesse lá hóstia grudada. Suor jorrando pelos cílios e visíveis somente luzes brilhando alternadas. Algodão no ouvido não foi lá ideia boa. Tudo soando meio final de 2001, só que num calor delirante dos trópicos. A blusa completamente encharcada contrastando com lábios muito ressecados acabam exigindo também todo um trabalho especial da respiração e daí foco até se perde, com atenção sem o timing no deslize do dedo médio por sobre os devidos trastes, antes que os outros três pousem pra formar o acorde seguinte. Mas não, o médio se arrasta viscoso no caminho, parando por conta própria uma casa abaixo, ou - dizendo diferente - uma casa antes. De todo modo, o dedo vai sangrar, isso não tem jeito, mas durante o tempo mesmo de notar o semiton da guitarra, pigarro fanfarrão impede tomada necessária de ar e a voz, refrão, eis que não sai. Acorde seguinte também se equivoca e agora palavras em geral tão virginais, lívidas, ilibadas e candentes, elas tão centrípetas findam se esquivando por entre territórios da percepção e memória. A sétima é menor? É a parte da luva ou da trégua? Já cantei a da luva? Não lembro. Será que respiro rápido pra entrar em anacruze? A treva, tão seleeeeta. Caralho, não era treva, era trégua. Aliás, que porra de letra é essa? Que eu tinha na cabeç... Ih, agora! O que mesmo? Ah tá. Pronto. Sol maior. Fechou. Um aplauso. Escorro o suor com a palheta e agradeço, sem saber se minha voz apenas não saiu ou se não havia mais som no microfone.

sábado, 1 de novembro de 2014

Tese de doutorado sobre psicodelia disponível em pdf

Honoráveis convivas,

É com uma satisfação incomensurável que aqui partilho o fruto mais que especial destes últimos quatro anos de pesquisa de doutorado, sob orientação do professor doutor Eduardo Henrique Passos, a quem agradeço em especial pelo primoroso trabalho de tornar partilhável um tipo de experiência que não tem encontrado muito lugar em nossa academia. Trata-se da tese Modulações de sentidos na experiência psicotrópica, defendida em 27 de agosto de 2014 no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. A composição multidisciplinar da banca de defesa dá o tom transdisciplinar da pesquisa, validada pelas psicólogas Analice Palombini (UFRGS) e Silvia Tedesco (UFF), pelo filósofo Auterives Maciel Jr. (PUC/RJ) e pelo historiador Henrique Soares Carneiro (USP). Cada participante da banca deu especial atenção e destaque a características mais próximas de suas implicações com a(s) temática(s), embora não tenham se limitado a considerações estanques, ou monodisciplinares, tendo toda banca destacado o rigor e a qualidade textual do trabalho. Analice, integrante do coletivo de pesquisa GAM (Gestão Autônoma da Medicação), junto ao qual minha tese foi desenvolvida, contribuiu não apenas com destaques relativos às questões de interesse principal da GAM, como também em relação à questão da escrita, da política da narratividade adotada, algo também destacado pela Silvia, cujas pesquisas estão focadas tanto nas relações entre literatura e produção de subjetividade quanto na clínica voltada a usuários de psicotrópicos proscritos. Auterives, sempre atento ao que nos força a pensar - em outros termos, ao fora - destacou aspectos da experiência psicodélica como uma experiência de pensamento que coloca na base de toda ação política um modo de pensar, uma cognição, e na base desta uma estética, um modo de sentir. Henrique, historiador que há muitíssimo tempo vem se ocupando da questão da experiência humana com substâncias capazes de alterar a consciência e, portanto, a experiência de si, além de inúmeras contribuições valiosíssimas (a grande maioria já aproveitada na versão oficial da tese que agora partilho), destacou o rigor e o pioneirismo da pesquisa, indicando se tratar de um dos melhores textos já escrito em língua portuguesa acerca da experiência psicodélica. Deixo aqui meus sinceros agradecimentos à banca, com um agradecimento especial à Analice, cujo texto lido na ocasião da defesa foi incorporado à introdução da tese.

      Espero que a tese não somente ajude a pensar questões urgentes quanto a proporcionar uma leitura prazerosa; quiçá uma experiência psicodélica de leitura. Caso tenha atingido tais objetivos, creio que um dos melhores retornos que posso receber agora é o amplo compartilhamento do material, assim como os comentários e críticas que auxiliem a aperfeiçoar a versão a ser futuramente publicada em livro.

      O pdf se encontra acessível para consulta e download gratuito no academia.edu e muito em breve também no site do PPG em Psicologia da UFF. Assim que estiver disponível, edito aqui para atualizar.

      Agradeço, por fim, a quem tiver lido esta postagem até aqui, com a saudação que me é característica.

      Beijos e vinhos!

imagem de akiyoshi kitaoca (disponível em http://www.theguardian.com/science/gallery/2014/aug/05/dizzying-optical-illusions-akiyoshi-kitaoka-pictures)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Lançamento do livro Atendendo na Guerra: dilemas médicos e jurídicos sobre o "crack"

Então, pessoal!

Na próxima terça-feira, dia 27 de maio, às 19h, na Livraria Argumento, do Leblon (Rua Dias Ferreira, 417), ocorre o lançamento do livro Atendendo na Guerra: dilemas médicos e jurídicos sobre o "crack", publicação da editora Revan e do Instituto Carioca de Criminologia. O livro, organizado por Vera Malaguti Batista e Lucília Elias Lopes, pretende adentrar no front da guerra às drogas que insiste em dominar nosso território há mais de quarenta anos e, para isso, conta também com textos de Alexandre Moura Dumans, Bernardo Gama Cruz, Eduardo Passos, Francisco Inácio Bastos, Iacã Macerata, Maria Lúcia Karam, Nilo Batista, Rafael Dias, Salo de Carvalho e Sandro Eduardo Rodrigues.

Contribuí com o texto Experiências psicotrópicas proscritas: o fora-eixo, sobre minha participação em um projeto multicêntrico de pesquisa - envolvendo UFF, UFRGS, UFRJ, UNICAMP e Université de Montréal - conhecido como Gestão Autônoma da Medicação (GAM). A GAM é uma nova abordagem em saúde mental surgida em Quèbec, no Canadá, ao longo dos anos 1990, visando ampliar a autonomia dos usuários de medicamentos psiquiátricos na gestão de seu tratamento, pela valorização da experiência vivida. Entre 2011 e 2012, participei de grupos de intervenção com usuários de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos, Rio de Janeiro, realizados no intuito de validar a versão brasileira do chamado Guia da Gestão Autônoma da Medicação, ferramenta que, ao longo de 2009 e 2010, havia sido traduzida e adaptada da versão canadense, editada em 2001, no intuito de ajudar a repensar a relação dos usuários com a medicação. Diferente do Canadá, a Reforma Psiquiátrica brasileira não toma a noção de autonomia como independência individual, autogestão, e sim como autonomia no coletivo e do coletivo. Enquanto a GAM canadense não conta com a participação de médicos, configurando-se como uma busca de alternativas ao tratamento farmacológico centrada na iniciativa individual do usuário, na GAM-BR, os médicos são incluídos nas negociações com os usuários acerca do uso de psicotrópicos. A Reforma Psiquiátrica brasileira é uma política de estado, com marco legal na Lei 10.216/01. No Brasil, fazer gestão autônoma da experiência psicotrópica é fazer cogestão, o que envolve a participação ativa de usuários, familiares, profissionais responsáveis pela prescrição, assim como dos próprios pesquisadores.
Fui à São Pedro com a tarefa de cuidar do chamado "fora-eixo" da GAM, o que implicava uma abertura sensível a questões não previstas nas categorias de análise previamente acordadas pelo coletivo de pesquisa, mas que, ao longo do processo, tenham se mostrado pertinentes. Para a formulação do problema da experiência psicotrópica, situado além e aquém da divisão jurídico-moral entre drogas lícitas e ilícitas, era preciso por em análise minhas implicações estético-políticas no aqui chamado underground psicodélico, ou seja, certo "submundo" (underground) contracultural regido por manifestações (delos) da mente (psychè). A experiência psicodélica revela a mente de um modo ampliado, o que produz momentaneamente efeitos de inefabilidade (impossibilidade de falar à altura da experiência vivida), de alteração das percepções internas (tempo) e externas (espaço), de perturbação do bom senso, a identidade de sujeitos e objetos, e do senso comum, o bom sentido, a causalidade linear, do passado ao futuro, dissolvendo as fronteiras ilusórias entre dentro e fora na afirmação do aqui e agora. Mas, com o acirramento do clima de combate a tais manifestações estético-políticas, em um ambiente regido pelo paradigma da guerra às drogas, a narrativa vai cada vez mais dando relevo a bad trips que incidem: sobre as experiências de uso de psicotrópicos tornados drogas ilícitas, via proibicionismo; sobre as experiências de uso de psicotrópicos prescritos automaticamente, via medicalização; e sobre a própria experiência de pesquisa, via supressão, em grande parte das publicações científicas, do que a análise institucional francesa chama de "fora-texto", ou seja, falas em geral silenciadas, por sua potência de derrubar paradigmas médico-científicos e jurídico-morais, perturbando ideais de identidade, neutralidade e separação entre sujeito e objeto da experiência.
Por fim, apresento um breve percurso da Redução de Danos (RD) no Brasil, passando pela marginalidade, pelo undergound, até sua emergência como paradigma e eixo articulador das políticas públicas para usuários de drogas. Com uma dinâmica de contágio própria do chamado underground junkie, a RD faz com que outsiders passem ao protagonismo nas ações de cuidado, através do trabalho de outreach work, e na formulação de políticas públicas, fazendo com que o "fora" vire eixo e perturbando, assim, as fronteiras entre dentro e fora da clínica e da política. O termo underground perde então sua conotação negativa, como um "submundo", um "mundo inferior". Como resultado parcial de uma pesquisa de doutorado, o texto mostra ainda um recorte bruto e um esboço de análise, desdobrados ao longo da tese, atualmente em processo de finalização para defesa prevista em agosto. Grande parte do artigo foi desenvolvida através de processos de cogestão das ideias, nos quais tiveram lugar especial as boas conversas com Rafael Gil Medeiros, cientista social e redutor de danos, mestre em psicologia social, pesquisador da GAM pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a quem deixo aqui um grande agradecimento e um abraço.

Lembrando, é terça-feira, dia 27 de maio, às 19h, na Livraria Argumento, do Leblon. Esperamos vocês lá!



sábado, 19 de abril de 2014

Albert Hofmann e o Dia da Bicicleta


Hoje, no Golden Gate Park, em San Francisco-CA, está sendo realizada a Hofmann's First Annual Bicycle Day Parade. A festividade comemora não apenas a bicicleta, mas, sobretudo, a viagem psicodélica. Mas qual a relação entre ciclovia e psicodelia?, você talvez perguntaria. Bem, se quiser mesmo saber, acomode-se bem e façamos logo uma visita ao laboratório daquela famosa companhia suiça de produtos químicos, fundada em 1886, por Edouard Sandoz.



entrando no laboratório

Em 1929, o químico suíço Albert Hofmann foi trabalhar no laboratório da companhia de produtos químicos Sandoz, com a equipe do professor Arthur Stoll, cuja atividade principal consistia basicamente em isolar alcaloides, investigar e produzir amostras puras dos princípios ativos de plantas.
Laboratório da Sandoz

Alcaloides são substâncias presentes em certas plantas – assim como em certos fungos, bactérias e animais – que podem produzir efeitos psicoativos diversos, tais como torpor, anestesia, energia, excitação, tremores, delírios, alucinações etc. São em geral identificadas pela terminação ina, como cafeína, morfina, cocaína, heroína, mescalina, leonorina...

Hofmann (1980) nutria especial interesse em plantas cujos princípios ativos são instáveis, ou cuja potência está sujeita a uma grande variação, o que torna difícil uma dosagem exata. Trata-se de plantas que podem tanto remediar quanto envenenar, de acordo, por exemplo, com a dose e as interações com outros fatores bioquímicos e psicossociais. O termo phármakon, em grego, significa ao mesmo tempo remédio e veneno (Derrida, 2005), embora grande parte de nossa sociedade associe a imagem do veneno somente ao termo droga e a do remédio ao termo fármaco. Apesar da etimologia controversa da palavra droga (Vargas, 2008), com várias hipóteses levantadas (por exemplo, na Holanda, droghe vate significava barril de folhas secas), o uso corrente do termo indica algo ruim (que droga!), tal como na língua inglesa, onde a palavra junk se refere tanto a drogas pesadas, como morfina e heroína, quanto a “lixo”, “algo imprestável” (Harris, 2005). Por aqui, em geral, se costuma considerar, automaticamente, o uso de substâncias prescritas pela indústria farmacêutica e obtidas legalmente em farmácias e drogarias como algo sempre benéfico e o uso de “substâncias psicoativas e matérias-primas para sua produção, que, em razão da proibição, são qualificadas de drogas ilícitas” (Karam, 2008), como algo sempre maléfico. Trata-se apenas de um arbítrio jurídico-moral. Ao isolar os alcaloides e obter na forma pura o princípio ativo dessas plantas, o que os cientistas da Sandoz queriam era “fabricar um preparado farmacêutico estável” para se tentar estabelecer então uma dosagem terapêutica segura. Nessa busca da dose ideal, a equipe estudava amostras de plantas batizadas com nomes fantásticos e elegantes, como a Digitalis purpurea, ou dedaleira, a Scilla maritima, ou cebola marítma, e a cravagem do centeio, também chamada esporão do centeio, ergot, ou, o nome talvez mais irresistível, Claviceps purpurea.
Claviceps purpurea
A ergotina, presente na Claviceps purpurea, fungo que se forma principalmente em grãos de centeio estragados, é uma substância tão instável que, ao longo dos séculos, mostrou que, em certas doses, podia matar ou mutilar, em doses precisas podia ajudar a medicina e, em doses tóxicas, causar fortes perturbações mentais (Cashman, 1970). O ergot produz o ergotismo ou fogo de Santo Antão, doença que, durante mais de 600 anos, provocou mortes e mutilações na Europa, pela constrição dos capilares da extremidade do corpo. Por outro lado, a cravagem do centeio produz contrações uterinas e o risco de sua utilização como auxiliar no trabalho de parto foi assumido durante séculos no Oriente Médio: a ergotina, usada no momento ou de modo incorreto, podia chegar a matar a criança, a mãe ou ambas; mas, na quantidade e momento oportunos, “era um verdadeiro benefício para a gestante”.
Mas mesmo o princípio ativo isolado da ergotina, o ácido lisérgico, com que o laboratório da Sandoz trabalhava, ainda mostrava-se muito instável, ao menos até 1938. Foi quando Hofmann encontrou um processo útil para combiná-lo com outras substâncias e produziu uma série de compostos. No dia 2 de maio, "com a intenção de obter um estimulante circulatório e respiratório", produziu o vigésimo quinto da série de compostos, a dietilamida no ácido lisérgico (Lyserg-saure-diathylamid), que acabou recebendo a sigla LSD-25. Testes laboratoriais indicaram fortes efeitos no útero e foi observado que animais experimentais ficavam inquietos sob efeito da droga. Mas, na ocasião, o fármaco não despertou interesse, sendo os testes descontinuados. O pessoal da Sandoz não fazia a mais remota ideia do que havia sido produzido.
Hoffman no laboratório
Durante cinco anos não se ouviu falar do LSD-25, embora Hofmann tenha continuado a pesquisar com a Claviceps purpurea, tendo chegado, com isso, a produzir remédios diversos, como o Hydergine, medicamento para a circulação periférica e a “função cerebral no controle das desordens geriátricas” que chegou a ser, por anos, “o produto farmacêutico mais importante da Sandoz”. Mas o cientista não abandonara o “relativamente desinteressante LSD-25”.


Ao contrário, cinco anos após sua primeira síntese, Hofmann, então diretor adjunto do laboratório, sentiu-se tomado por um “pressentimento peculiar, o sentimento de que esta substância pudesse possuir propriedades diferentes das que foram estabelecidas nas primeiras investigações”. Tal pressentimento o induziu a sintetizar novamente o LSD, o que era bastante incomum, “uma vez determinada a falta de interesses farmacológicos”. Mas seu empenho em seguir a intuição, assim como sua atitude de experimentação radical, seriam essenciais para o que a ciência estava para criar.
Molécula de LSD
Numa tarde quente da primavera de 1943, mais exatamente no dia 16 de abril, sexta-feira, o tartarato de destro-dietilamida do ácido lisérgico-25 foi, após cinco anos, mais uma vez sintetizado. Durante a conclusão dessa nova síntese do LSD-25, Hofmann sentiu que precisava interromper o trabalho e voltar para casa, “afetado por uma inquietude notável, combinada com uma leve vertigem”, conforme descrevera depois, em um relatório enviado ao professor Stoll. No relato, conta que, ao chegar em casa, deitou e afundou em uma experiência “não desagradável de embriaguez, caracterizada por uma imaginação extremamente estimulada”. Achando incômoda a luz do dia, manteve os olhos fechados e, em um estado quase onírico, assistiu a “um fluxo ininterrupto de imagens fantásticas, formas extraordinárias com um intenso jogo de cores caleidoscópico”. Esse estado evanesceu em aproximadamente duas horas.
Tentando entender o que ocorrera, lembrou ter manipulado o ácido lisérgico, embora não tenha compreendido como conseguira absorver, em algum contato acidental bem leve – pois nem se lembrava de ter ocorrido –, uma dose grande o suficiente para causar os efeitos que foram vividos, experienciados, de modo tão vívido, intenso, exuberante. Imaginou então que devia se tratar mesmo de uma droga com uma potência extraordinária. Mas sua atitude de cientista logo sinalizou-lhe que já era hora de ir além de quaisquer devaneios e especulações: “parecia haver somente uma maneira de se chegar ao fundo disto. Decidi fazer uma auto-experiência”.

saindo do laboratório

Assim, numa segunda-feira, 19 de abril de 1943, mais especificamente às 16:20, Hofmann se auto-administrava 250 microgramas de LSD-25 no laboratório da Sandoz, sem fazer ideia ainda que estava absorvendo dez vezes a dose que, no futuro, seria estabelecida como a mínima eficaz para obter os efeitos psicoativos que ainda estavam por serem descobertos. Às 17:00, após registrar ter sentido vertigem, ansiedade, distorções visuais, paralisia e vontade de rir, cessava as notas em seu diário de pesquisa. Já estava claro que o LSD tinha sido mesmo a causa da extraordinária experiência anterior, “pois as percepções alteradas eram do mesmo tipo de antes, embora bem mais intensas”. Teve que lutar para falar de modo inteligível e pedir ao assistente de laboratório, que estava ciente do experimento, que o acompanhasse até em casa. Como “nenhum automóvel estava disponível por causa das restrições de uso durante a guerra”, foram de bike. Há exatos 71 anos, foi realizado um dos passeios mais fantásticos pelas ciclovias da mente.
Blotter comemorativo
Mas aos poucos sua experiência subjetiva foi começando a tomar formas mais ameaçadoras. Na viagem, todo seu campo de visão “ondulava e se distorcia como se visto num espelho torto”. Com isso, começavam a oscilar e se distorcer também alguns dos parâmetros espaço-temporais que servem usualmente de referência, de contorno para uma imagem de si: a identidade também começa a ser perturbada. Imagina você ter tido a “sensação de não ser capaz de sair do lugar”, mas ouvir depois, de seu colega, que “tínhamos viajado muito rápido”... Sua percepção do tempo e do espaço está muito alterada. Sua? O ambiente ao redor se encontra transformado: tudo parece girar e os objetos mais familiares assumem formas grotescas, ameaçadoras, em contínuo movimento, “animadas, como se dirigidas por uma inquietude interna”. Há poucos instantes havia pedido para chamar o médico da família e agora mal consegue reconhecer a vizinha que lhe traz o leite, também solicitado, pois ela se tornou “uma bruxa malévola, insidiosa com uma máscara colorida”. Muito impressionantes também as alterações que começa a sentir internamente: “um demônio tinha me invadido”, tomando posse de “corpo, mente, e alma”, triunfando sobre a vontade, arrasada “pelo medo terrível de ter enlouquecido”. Está em outro lugar, outro mundo, outro tempo. O corpo, estranho e sem vida, talvez esteja morrendo: “seria isto a passagem?”. Fora de si, ante o medo de uma morte por vir, se culpa por não ter se despedido da família: “será que eles entenderiam que eu não tinha experimentado de modo irrefletido, irresponsável, mas com extrema precaução, e que tal resultado era totalmente imprevisível?” Bastante paranoico, quer beber leite, muito leite.
Quando o médico da família finalmente chega, a paranoia tinha passado, mas é o assistente de laboratório que o informa da experiência, pois Hofmann ainda não consegue formular frases muito coerentes. O médico nota as pupilas dilatadas, mas sua avaliação não aponta qualquer sinal de anormalidade: pulso, pressão sanguínea e respiração estão normais; não há razão alguma para prescrever qualquer medicamento. Ao invés disso, o médico leva Hofmann para a cama e senta-se ao lado, acompanhando o lento retorno desse mundo estranho, no qual, pouco a pouco, o cientista começa a contemplar cores sem precedentes e jogos de formas que persistem sob os olhos fechados. Vão surgindo imagens caleidoscópicas fantásticas, “alternando, variando, abrindo e se fechando em círculos e espirais, explodindo em fontes coloridas, reorganizando e se cruzando em fluxos constantes”. Nessa reorganização cruzada, a percepção acústica se transforma em percepções óticas e todo som gera “uma vívida imagem variável, com sua própria consistência, forma e cor”. Passadas algumas horas, exausto, cai no sono, “para despertar na manhã seguinte revigorado, com a mente clara, embora ainda um pouco cansado”, mas sentindo fluir “uma sensação de bem-estar e vida renovada”. No dia seguinte, sua percepção estava diferente, com sede de vida: “o mundo estava como que recriado. Todos meus sentidos vibravam em um estado da mais alta sensibilidade que persistiu por todo o dia”.
Animação italiana inspirada na experiência de Hofmann

A conclusão do auto-experimento de Hofmann mostrou o LSD-25 se comportando como “uma substância psicoativa com propriedades e potência extraordinárias”. Não se conhecia outro fármaco capaz de produzir efeitos tão intensos em doses tão baixas. Hofmann era um homem de ciência e estava seguro que o LSD “teria uso na farmacologia, na neurologia e especialmente na psiquiatria”, embora naquele momento “não tivesse a mínima suspeita de que a nova substância também viria a ser usada além da ciência médica, como um inebriante”. Tampouco reconheceu, à época, a “conexão significativa entre a inebriação por LSD e experiências visionárias espontâneas, até bem depois, após experiências adicionais levadas a cabo com doses bem mais baixas e sob condições diferentes”. Inúmeros usos e sentidos ainda estavam por ser descobertos e inventados para o LSD. Embora o tema convide a mais esclarecimentos em outro texto, não podemos deixar de colocar que, após a proibição do LSD e sua entrada na agenda I de drogas mais perigosas, para as quais não se reconhece uso médico, é em clima de comemoração que a psicodelia tem vivido atualmente. Hofmann passou décadas lamentando a proibição das pesquisas científicas com o LSD, mas, antes de morrer em 2008, aos 102 anos de idade, teve a felicidade de conhecer a recente retomada dos estudos com fármacos psicodélicos, na Suiça, embora não mais com LSD produzido pela Sandoz (a empresa fundiu com a Ciba-Geygi, em 1996, formando a atual Novartis; há décadas não fabrica mais LSD e a história da substância sequer consta na homepage, mas isso é assunto para outro texto).. E nós temos ainda a felicidade de recebermos a recente divulgação das primeiras publicações de resultados da primeira pesquisa com LSD realizada em quatro décadas. Mas isso também já seria assunto para outro texto. Bem, embora eu tenha muito texto para elaborar hoje e não vá me furtar ao compromisso, preciso deixar registrado que agora são 16:20 e a tarde ensolarada está mesmo para quem puder comemorar, passear, viajar, seja por rodovias, ferrovias, ciclovias, hidrovias, psicovias e outras tantas psicodelias. Portanto, aproveitem e boa viagem! Mas, com prudência. Levem água, capacete, leite etc...

Hofmann, ao completar 100 anos


Referências:
CASHMAN, John. LSD. São Paulo: Perspectiva, 1970.
DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. (1972). São Paulo: Iluminuras, 2005.
HARRIS, Oliver. Introdução do editor. Em BURROUGHS, William. Junky. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
HOFMANN, Albert. LSD - My Problem Child. McGraw-Hill Book Company, 1980. (disponível em pdf)
KARAM, Maria Lucia. A Lei 11.343/06 e os repetidos danos do proibicionismo. Em: LABATE et al (orgs). Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008 (também disponível em pdf)
VARGAS, Eduardo V. Fármacos e outros objetos sócio-técnicos. Em: LABATE et al (orgs) op. cit. 2008.